Novidade

Brevemente, além de leres poderás ouvir os meus poemas e prosas recitados por mim e com fundo musical.

sábado, 26 de novembro de 2022

ALMA MATER

 A minha alma já deixou de ser minha!

Já não a construo, não a defino, nem a sei desenhar!

Agora é ela, que como alma rainha,

me leva pela mão enquanto caminha,

Agora pertence ao tempo, pertence ao céu e ao mar!


A minha alma já deixou de ter segredos!

É como livro arquivado que nunca foi lido.

É como tela que se pinta com a tinta nos dedos,

Largando os sonhos, o amor, os receios e os medos,

num gesto que acalma o meu corpo ferido.


A minha alma já não tem morada certa!

Agora é nómada em constante peregrinação.

Vive pelas ruas de uma cidade deserta,

Espreita pelo mundo por uma janela aberta,

Velando a dor da Humanidade em desconstrução.


A minha alma já não tem rasgos de euforia!

Agora tem silêncios de um profundo pesar.

Veste-se de música,  das palavras de uma poesia,

nas cores que dançam numa tela branca em orgia,

e já nem me deixa dizer o que eu arrisco pensar.


A minha alma já não é a mesma de outrora!

Agora é um mar de sangue onde navego sem fim.

E eu sem alma, não sei meu tempo nem sei a hora,

Apenas espero na ansiedade em que vivo agora,

por esta Alma Mater, que se apoderou e me define a mim.



domingo, 13 de novembro de 2022

TEMPO VAGO

Há muito tempo, eu olhava para o tempo, e sorria

Porque o meu tempo era longo, distante, sem fim.

Tinha tempo para sonhar, acreditar, tudo me parecia,

A imensidão dum oceano e seu cheiro a maresia,

E sentia como se o mundo, fosse todo para mim.


Não olhava o relógio, que teimosamente não queria parar.

Nem contava as horas, os dias, nem os anos sequer.

Tinha tempo, e um montão de sonhos por realizar,

Tinha tempo, e tinha em mim a pressa de chegar,

como quem corre iludido para os braços duma mulher.


Tropecei no tempo, tantas vezes caí e outras tantas me levantei

Obstinado o meu desejo de atingir nem sei o quê.

Foi o tempo, que secou todas as lágrimas que chorei,

Foi o tempo, o confidente com que eu mais contei,

Mas foi o tempo, que me mostrou a realidade do que não se vê.


E só então, depois das desilusões e de tanto sofrer,

Comecei a olhar o tempo com admiração e respeito.

Ele tinha estado ali, constante no meu viver,

Tentou dar-me ensinamentos, dos quais nem quis saber,

E agora é a dor do tempo, que eu carrego no meu peito.


Sem dar por isso, os minutos, horas, dias e até os anos,

Escorreram como azeite, entre a pele envelhecida de meus dedos.

Agora nem sei se foi o tempo o culpado de todos os danos,

No meu ser feito de anseios, ilusões e desenganos,

Onde disfarcei angústias, os erros, e os meus medos.


Chegado aqui, vejo o tempo já tão curto, tão pequeno,

Que lhe rogo até em prece, que ande um pouco mais devagar.

É que eu agora só quero viver tranquilo e sereno,

Num clima de desejos e ambições mais ameno,

E até já perdi qualquer pressa inútil de chegar.


Agora o meu tempo, é o de tudo tentar entender

De um olhar para trás a questionar e vasculhar as verdades.

Olho pela janela, esperando se o tempo ainda vem para me ver,

Mas vejo apenas, como o tempo passou por mim a correr,

E agora em vez de sonhos, o meu tempo é de saudades.


Já nem sei se terei tempo, para ao tempo me desculpar,

O meu tempo já é só o hoje, por onde vivo e louco divago.

Vivo agora cada segundo tentando me perdoar,

Mas já pouco importa, pois no pouco tempo que me sobrar,

já saberei entender, que o tempo é fugaz, que o tempo é vago.


terça-feira, 5 de janeiro de 2021

DOM JULIÃO, O AVARENTO

Lá longe, por entre vales e montes,
chegava-se à Herdade das Fontes,
de um tal Dom Julião.
Diziam que ele era importante,
vivia num palácio brilhante,
com um imponente portão.

Diz quem em tempos o conheceu
que sempre sózinho ali viveu,
nunca quis mulher nem filhos.
Lá perto, pelas ruas da aldeia,
sempre se falou à boca cheia,
que era um homem de sarilhos.

Consta, para se dizer a verdade,
que ele herdou aquela herdade,
duma tia velhota que já morreu.
Foi pra lá ainda muito novo,
nunca se misturou com o povo,
e poucas vezes ele apareceu.

Dizem que quando ele lá chegou
um novo negócio inventou,
sem quase nada gastar.
Mas depressa ele fez milhões
com garrafas e garrafões,
e água das fontes para engarrafar.

Tinha tudo, dinheiro  a rodos
mas sempre discutia com todos
os empregados, mais de cem.
Nunca emprestou um tostão,
nunca deu sequer um pão,
nem um copo de água a ninguém.

Estava sempre a resmungar
na ânsia de querer mais poupar
para juntar ao que amealhou.
Mas um dia, as fontes secaram,
logo todos o abandonaram,
nunca mais alguém lá voltou.

Agora que já está velho e doente,
vai pedindo a toda a gente,
se alguém dele pode cuidar.
Tem dinheiro, mas resmungão,
falta-lhe a boa educação,
ninguém o quer aturar.

Apesar do dinheiro que ganhou,
nem nunca um carro comprou,
anda montado num jumento.
Por isso o povo diz com graça,
quando o vê passar na praça,
Lá vai Dom Julião, o avarento.





segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

A RITA VAIDOSA

A Rita, era tão bonita,

punha no cabelo uma fita,

vestia um vestido rodado,

bem bonito, encarnado.

E num jeito bem airoso,

punha um perfume cheiroso,

apenas para ir brincar.

Ninguém lhe podia tocar!

Não a fossem amarrotar,

Nem um casaco vestiu,

para o vestido mostrar...

Preferia passar frio,

andava a tiritar.

Estava constantemente,

a arranjar o cabelo...

A Rita tinha a mania,

de que ía ser modelo,

ser famosa, manequim,

E andava pelo jardim

como se fosse a desfilar.

Mas as amigas estavam fartas,

e não queriam mais brincar.

Já não tinham paciência

para a ouvir falar.

Mas a Rita, tão bonita,

ajeitava  a sua fita

sacudia os  cabelos no ar.

Mas o problema da Rita,

por saber que era bonita,

não se preocupava em estudar.

E assim a Rita cresceu

nada de jeito aprendeu

e nem se conseguiu formar.

Vivia só de vaidade,

e naquela ansiedade,

de ser capa de revista.

Mas o tempo foi passando,

E a Rita ficou chorando,

por não ter qualquer conquista.

Um dia por acaso encontrou,

as amigas com que brincou,

e com as quais ela gozava.

A Lorena era já doutora,

e a Inês uma senhora,

que numa empresa mandava.

Gostavam de viajar,

conhecer outros países,

eram mulheres felizes,

Com vidas bem interessantes.

Já a Rita, vivia aflita,

continuava a usar a fita,

Mas não era bonita como antes.

Pois de nada lhe serviu,

viver apenas prá vaidade.

O futuro, foi aquilo que se viu

a beleza com os anos partiu,

e ficou a realidade.


sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

A CAIXA DE LÁPIS DE CÔR

Numa caixa de cartão colorida,

Em manchas de aguarela.

Vinte e quatro lápis davam vida,

a uma bonita janela.


Viviam ali tão encostadinhos,

muito quietinhos sossegados.

Sempre bem arrumadinhos

e pelas cores ordenados.


Esperavam ansiosamente

para fora da caixa saltar.

Para quando alguém finalmente

precisasse deles pra pintar.


Por vezes enquanto esperavam

longas conversas mantinham.

Sobre as cores com que pintavam,

e as qualidades que tinham.


O verde, com certas manias,

disse sem qualquer subtileza:

-Sou a cor das pradarias,

e da flora, da natureza.


O amarelo já irritado,

não conseguiu aguentar.

-O que seria de ti verde coitado,

sem o meu sol a brilhar.


O castanho, num tom pomposo,

rapidamente respondeu:

- Eu sou a terra e um tronco grosso,

onde toda a vida nasceu.


Não és assim tão importante!

Disse o azul sem hesitar.

Eu vou muito mais distante,

pois sou o céu e o mar.


O vermelho disse com fervor:

-Dividam lá isso a meias.

Pois sou a cor do amor,

e do sangue que corre nas veias.


O laranja, mais pedagogo,

disse ao vermelho, encarnado.

Como serias tu cor do fogo,

sem laranja misturado.


O Rosa em jeito de vaidade,

educadamente disse assim:

Sou a cor da felicidade,

nas flores de um jardim.


Mas o branco, que até então,

Só tinha ouvido, calado.

- Eu sou a cor da razão,

sou o branco imaculado.


Logo o preto não gostou,

e disse no seu sábio dizer:

-Só graças ao contraste que dou,

alguém em ti pode ler.


O cinzento não se conteve,

deu uma gargalhada e depois:

- Que graça que cada um teve,

Eu sou a mistura do dois.


O roxo, que era baixinho,

disse um pouco envergonhado:

-Sei que sou pequenininho,

mas porque fui mais usado.


O verde claro, gaguejando,

disse sincopando os sons:

-Eu-eu-eu que-que-ria ver-ver-vos pin-pin-tando

sem-sem ha-haver os Mei-meios tons.


Depois de alguns dissabores

de conversas de rivais.

Perceberam então as cores

que diferentes, são iguais.


Como seria o mundo todo escuro,

Como seria o planeta todo claro.

Com cores se pinta o futuro,

num abraço de sonho e amparo.


Seja grande, seja pequeno,

Com diferenças, como a gaguez.

Só juntos num mundo sereno,

se pinta tudo aquilo que vês.


Porque nada importa o que temos

nem a diferença ou a cor.

Mas todos juntos valemos,

um mundo pintado de amor.



POEMA INCOMPLETO

Tentei escrever um poema

com mil frases infinitas

mas fiquei com um problema

não tinha palavras ------------


Eu bem teimava e tentava,

e tantos versos escrevia.

Mas sempre uma palavra faltava

para me encher de -----------


O poema estava tão triste,

dizendo que assim não se anima.

Porque um poema existe,

na palavra que faz a ---------


Não se sentia bela poesia,

nem poderia vir a ser canção

Pois tudo aquilo que dizia

não chegava ao -----------


Foi então que me lembrei

com crianças que ali estavam

que elas me ajudassem também

nas palavras que ------------


Haviam tantos dedos no ar,

todos queriam dar sugestões.

Com palavras que a rimar,

fizessem belas -----------


Depois de algum tempo passado,

todos juntos a escrever

O poema inacabado

já se fazia ---------------


Agora o poema incompleto

consegue dizer o que diz.

Com mais palavras, completo,

é um poema ------------

quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

O Cão Pimpão

Pimpão era um cão,

alegre e brincalhão,

Mas era tão comilão,

comia quilos de ração,

e comia sem razão,

tudo o que via no chão,

até um brinquedo avião,

e o sapato do João,

Comia com sofreguidão,

que metia confusão.

Comeu um queijo castelão,

Comeu feijoada com grão,

Comeu bolos e comeu pão,

e até sem explicação

tentou comer a televisão.

De tanto comer nessa aflição,

estava redondo como um balão.

Rebolava pelo chão,

de tão má disposição,

de tanto comer pois então.

Tinha problemas de coração,

e diabetes de cão,

Ai Pimpão, ai Pimpão,

tu tens de ter atenção.

Mas ele dizia que não,

não havia preocupação.

Até que um dia o João,

foi encontrar o Pimpão,

quase morto no chão,

quase sem respiração,

E chorando o João,

naquela grande aflição

para salvar o Pimpão

com o telefone na mão

Ligou pró doutor Salvação,

que chegou de foguetão,

e lhe fez reanimação.

deu-lhe logo uma injecção,

deu-lhe soro mesmo pra cão.

Passou-lhe receitação,

para nova alimentação,

e uma dieta de ração.

Ralhando disse ao Pimpão,

Olha lá bem pró João,

a chorar numa aflição.

Tu tens de ter atenção

comer com moderação,

É até falta de educação,

comeres que nem um leão,

Tem cuidado senão

morres com gula de cão.




quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

CATRAPUM , RIBOMBÃO

O Manel era bonzinho,
era até bom rapazinho,
Gostava de rir e falar,
mas se o faziam zangar...

Catrapum, ribombão,
como a ira de um trovão.

A Milú era uma gata,
muito calma e pacata.
Levava o dia a ronronar,
mas se lhe iam tocar...

Catrapum, ribombão,
como a ira de um trovão.

O Tuti era um coelho,
que gostava de se ver ao espelho.
Passava horas a roer,
mas se lhe iam mexer...

Catrapum, ribombão,
como a ira de um trovão.

A Inês era uma mocinha,
bem vestida, bonitinha,
Gostava muito de passear,
mas se a faziam chorar...

Catrapum, ribombão,
como a ira de um trovão.

Piruças era um lindo cão,
que gostava de lamber a mão.
Punha tudo em alvoroço,
Mas se lhe tiravam o osso...

Catrapum, ribombão,
como a ira de um trovão.

O Doutor Silva era cientista,
Falava como um artista.
Era um homem da ciência,
Mas se lhe tiravam a paciência...

Catrapum, ribombão,
como a ira de um trovão.

Se eram todos bem dotados,
tão calmos e sossegados.
Será que era uma mentira,
de repente tanta ira?

Catrapum, ribombão,
como a ira de um trovão.

É melhor ter outro jeito,
zangarmo-nos mas com respeito.
Porque alguém que fica irado,
parece até mal educado.

Catrapum, ribombão,
vive com paz no coração.

terça-feira, 15 de dezembro de 2020

PREGUICITE AGUDA

Havia um certo rapaz

que era de tanto capaz,

sem precisar de ajuda.

Mas coitado, logo à nascença,

apareceu-lhe uma doença,

a preguicite aguda.


De manhã a mãe chamava

mas ele não se levantava,

queria ficar a dormir.

Porque não gostava da escola,

Mas para ir jogar à bola,

despachava-se a fugir.


Na escola ficava amuado,

por vezes até zangado,

não queria aprender.

Até dizia um nome feio,

Mas na hora do recreio,

lá ía ele a correr.


Era uma dor de cabeça,

Quando se sentava à mesa,

na hora de almoçar.

Até gostava da comida,

Mas engolia de fugida,

Com preguiça de mastigar.


Era só quês e porquês,

pra fazer os TPCs

Quando a casa chegava.

A vontade era tão pouca,

Que a mãe ficava louca,

e todo o dia ralhava.


O pai, ao qual tinha mais respeito,

falava-lhe então a preceito,

Num tom sério e vagaroso:

Filho, tu tens tanta virtude,

Mas tens de mudar de atitude

deixar de ser preguiçoso.


Ele respondia que sim,

Mas conversa chegada ao fim,

Voltava tudo à mesma.

Qualquer coisa que fazia,

era sempre uma agonia,

tão veloz como uma lesma.


Mas que doença terrível,

parecia quase impossível,

Encontrar-lhe uma cura.

A preguicite é tramada,

nunca deixa fazer nada,

e há tanto tempo que dura.


O rapaz lá foi crescendo,

tantos problemas foi tendo,

tantos males lhe aconteceu.

Até que um certo dia,

o rapaz, por ironia,

a preguiça entendeu.


Percebeu que na verdade,

se mostrasse mais vontade,

No que tinha de fazer.

Ganhava mais simpatia,

e sendo bom no que fazia,

era bem fácil vencer.


Agora, já homem feito,

o rapaz estudou direito,

e num doutor se tornou.

Mas ainda vive a lembrança,

da preguicite de criança,

que só ele próprio curou.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

AI JOÃO, AI JOÃO

Ai João, aí João


O João tem uma bola,

que leva dentro da sacola

para quando sai da escola

ir para o pátio jogar.

E a bola salta, rebola,

dá-lhe com o pé e com a tola,

Mas o João se isola,

sózinho para brincar.


Ai João, aí João


O João tem um pião,

escondido no bolso do calção,

e uma corda pois então,

para com o pião brincar.

E o pião salta-lhe da mão,

e roda roda no chão,

e o João fica em aflição

Se alguém o quer ver rodar.


Ai João, aí João


O João tem uma bicicleta,

bem bonita, a predilecta,

e quer na curva quer na recta,

É ver o João pedalar.

Em sprint ele chega à meta,

como campeão e atleta,

Mas de forma incorrecta,

não deixa mais ninguém andar.


Ai João, aí João


O João tem tecnologia,

Telefone, tablet e fantasia,

que fazem pura magia,

Em jogos para jogar.

Ele passa parte do dia,

nessa imensa alegria,

Mas o João, por ironia,

não deixa ninguém lhes tocar.


Ai João, aí João


O João é um sortudo,

pois ele tem quase tudo,

Tem tudo o que um miúdo

possa algum dia sonhar.

Mas o João é sisudo,

já não fala, é quase mudo,

pois apesar de ter tudo,

não tem com quem brincar.


Ai João, aí João


Ai João, tu tens de ver,

tens de tentar perceber,

que isso de tudo ter,

pode bem ser um castigo.

Ai João, tu vais crescer,

e na vida que vais viver,

o melhor que podes ter,

É um verdadeiro amigo.


Ai João, aí João



COISAS DA INVEJA

O pobre do velho sapo,
que já dizia coisas sem nexo
Andava feito num farrapo,
por se achar um velho trapo,
ao ver na água seu reflexo.

Falava com inveja e desdém
Do seu vizinho camaleão.
Pelas qualidades que tem,
Subir árvores como ninguém,
e mudar de cor, pois então.

Mas o camaleão coitado,
Deixava o sapo falar.
Andava sempre angustiado,
nas árvores empoleirado,
porque não sabia nadar.

Ficava ainda mais invejoso,
ao ver o colibri voar.
E ele ali, vagaroso,
aguardando atento pelo almoço,
sem o poder ir buscar.

O colibri exibicionista,
Pairava sobre uma flor.
Armado em malabarista,
como se fosse um artista,
voando em seu redor.

Ele disfarçava o seu medo,
da sua pequenez fatal.
E admirava em segredo,
Lá no alto dum penedo,
o voo da águia real.

A àguia em voos rasantes,
e quase sempre certeiros,
Caçava pobres rastejantes,
com inveja dos elefantes,
serem tão bons companheiros.

Andavam sempre em manada,
em familia, em protecção.
Enquanto que a àguia coitada,
lutava desesperada,
apenas para procriação.

Mal sabia ela que o elefante,
no seu lento e pesado andar.
Debaixo de um sol escaldante
chorava por não ser elegante,
e por não saber saltar.

Se fosse pelo menos como a hiena,
se pelo menos pudesse sorrir.
Talvez assim valesse a pena,
tão fastidiosa faiena,
e um tão penoso carpir.

Mas a hiena achava estranho,
o desejo do elefante.
Precisaria de menor empenho,
se tivesse aquele tamanho,
e seria mais importante.

O que ela na verdade queria,
era ser como o leão.
Ser o rei da pradaria,
respeitado de noite e dia,
numa imponente solidão.

Ah mas o rei tinha um problema,
um segredo bem guardado.
Vivia num grande dilema,
uma história, quase poema,
que a ninguém havia contado.

-Se eu pudesse seria serpente!
Dessas com veneno mortal.
Dizia o leão descontente,
porque ser rei de toda a gente,
não tem vantagens afinal.

A serpente quando o ouviu,
nem queria acreditar.
Ter de dormir meses a fio,
comer de verão, porque no frio,
nem sequer podia rastejar.

Antes fosse lagarta feia,
porque ser serpente é uma treta.
Porque a lagarta ao morrer,
ainda pode vir a ser,
uma linda borboleta.

A lagarta não achou graça,
Pensou que era piada.
Minha vida é uma desgraça,
e tão depressa a vida passa,
que eu nem sequer dou por nada.

Sei que morro em borboleta,
mas sou um pobre farrapo.
Tudo em mim se espeta,
minha vida é uma treta,
quem me dera ser um sapo.

E para ter final a jeito
fica então a moral da história,
Não há nenhum ser perfeito,
Mas cada um no seu jeito,
deixa no mundo sua glória.




sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

JÁ NÃO SONHO

Já não sonho como sonhava outrora,

Já não me iludo com fantasias.

Já não quero que um minuto seja uma hora,

Já não quero que horas sejam dias.

Quero saber-me no aqui e agora,

No antígono de meus sonhos e utopias.

Porque há um momento de perceber quem somos

Entre os desejos de ser e quem realmente fomos.


Já não quero sonhar como eu sonhava,

Já não tenho tempo para perder com ilusões.

Já não quero acreditar como acreditava,

Já não quero sentir novas emoções.

Quero ser apenas eu, como sou,

sonhador cansado de tantas desilusões.

Porque o tempo, vai-me roubando a esperança,

e o sonho, nem tudo na vida alcança.


Já não me iludo numa dourada quimera,

Já não sou surdo mudo, nem herói ou campeão.

Já sou tão pouco metade daquilo que era,

Já não sou poema, nem música, nem canção.

Quero apenas uma palavra sincera

que me aqueça a alma e me explique a razão.

Porque sonhando aprendi com o passar da idade,

que é melhor aprender a viver a realidade.

VOU

Vou...

Vou por aí, procurar por mim,

ciente da dificuldade de me encontrar.

Vou ao horizonte, atravesso a ponte,

e talvez me encontre

sentado à beira-mar.


Vou...

Vou sem destino, procurar o menino,

o ingénuo sonhador que me conheci.

Vou na ilusão, em inquietação,

descobrir a razão

porque me perdi.


Vou...

Vou embalado no vento, à procura de alento,

tentar descobrir em que episódio fiquei.

Vou em busca do paraíso, que me dê um sorriso,

ou até do juízo,

que perdi e não sei.


Vou...

Vou sem partir, e sem sequer sair,

pois dou por mim sempre no mesmo lugar.

Vou nesta fuga sem jeito, procurar o preceito,

porque me assiste o direito,

de não querer ficar.


Vou...

Vou contar as estrelas, mas nem consigo vê-las,

porque a noite tão escura me faz adormecer.

Vou num sono profundo, procurar outro mundo,

indagar no meu fundo,

o que é feito do meu ser.


Vou...

Vou acelerar os meus passos, e abrir os meus braços,

sem olhar para trás em tão breve despedida.

Vou e não levo pena, apenas uma mão que acena,

enquanto tudo me condena,

a ter de viver esta vida.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

QUERO TANTO...

Quero tanto pernoitar em ti,

sentir do teu corpo nu esse calor que aconchega,

essa pele descoberta por meus dedos,

que até meus mais recônditos segredos,

desinquieta e desassossega.

Quero beijar-te num só tão doce beijo,

que te percorra o corpo em desejo,

Em prazeres derradeiros.

Quero parar os ponteiros,

num tempo que não tenha fim.

Quero beber-te, comer-te, 

saciar teu corpo de mim.

Lamber-te calma e suavemente,

onde o teu corpo mais sente,

nessa expressão que não mente,

de um prazer louco e sem fim.

Murmúrios, palavras ofegantes e ternas,

enquanto te abro as pernas,

numa vontade incontida,

e te penetro extasiado,

Com o carinho delicado

de quem encontra a própria vida.

Quero sentir os teus seios,

roçando suados em meu peito,

onde bate meu coração

acelerado e sem jeito.

Quero olhar-te nos olhos,

dizer-te tudo sem falar.

E até os teus gemidos,

são música para os meus ouvidos,

onde eu anseio cantar.

Sentir tua pele a ferver...

Sentir teu corpo a tremer...

Sentir-te a sentir prazer...

E num momento, imaculado,

és um ser incontrolado

voando na louca excitação.

Cravas-me unhas nas costas,

falas sem receio o que gostas,

incendeias de paixão.

E eu, que não sei resistir,

a tão excitável visão,

como louco, deixo-me ir,

voo contigo, e depois....

A sublimação entre os dois.

Quero ver-nos suados, cansados,

prostrados de um prazer satisfeito.

Nossos corpos entrelaçados,

colados, encostados,

e o teu rosto no meu peito.

Como se num só momento,

toda a paz e alento

nos invadisse a alma.

Nessa paixão que incendeia,

e o espírito saboreia,

e que só o amor acalma.

Quero tanto...

Por isso no desejo eu te chamo.

Quero contrariar os revezes,

para dizer-te milhões de vezes,

o quanto te adoro e te amo.



quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

IMPERFEITO

Sou um ser discreto, imperfeito
Sou da utopia, pura ilusão.
Sou a habilidade sem jeito,
Sou o torto sem o direito,
desejo efémero da perfeição.

Sou um ser confuso, imperfeito
Sou o fruto de quem me fez.
Sou rosa desfolhada no peito,
Sou caminho largo e estreito,
pedra de calçada talvez.

Sou um ser inquieto, imperfeito
Sou tela em branco por pintar.
Sou delírio já contrafeito,
Sou pássaro num parapeito,
que já não sabe cantar.

Sou um ser estúpido, imperfeito
Sou certo de ter ilusões.
Sou a negação do que aceito,
Sou a mórbida visão que espreito,
nos meus milhares de questões.

Sou um ser perdido, imperfeito
Sou tentativa e desilusão.
Sou o que ainda não está feito,
Sou mais do que trago no peito,
nesta alma em construcção.

Sou um ser contido, imperfeito
Sou incerteza da razão.
Sou o refazer do refeito,
Sou o oposto do perfeito,
busca eterna da perfeição.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

Abecedário do Amor

Com A eu te escrevo amor,

Com B eu te dou um beijo.

No C te dou meu carinho,

e no D o meu desejo.

É com o E que eu te esperei

e com F em ti eu fico.

Com o G te glorifico

e com H te honrei.

Com o I tu me impeles

e no J és meu jasmim

no K meu Keep Calm

No L és meu latim.

No M és o meu mundo

No N és meu Narciso

No O sou oriundo

do P onde te preciso.

Com Q te chamo querida

Com R minha razão.

Com S serás saudade

Com T minha tentação.

No U tu és a única

No V a minha vida.

No W a minha web

No X és xilogravura

No Y és meu yes

No Z és zimbradura

És mais, muito mais que tudo,

muito além dum abecedário.

Sem ti eu seria mudo,

Com tudo virado ao contrário.

A NOVA POESIA

Os poetas já não rimam...

Não são como antigamente.

Escrevem palavras que exprimam

e que em si próprios redimam,

tudo o que a alma sente.


Excedem-se no que é metafórico,

Para o que é simples dizer.

Num conjunto bem pictórico,

de frases por entender.


Tal como um pintor abstracto,

que solta pinceladas da mão.

Mas depois tem nobre explicação,

para as manchas que pintou,

E encontra um sentido lato

para algo que visionou.


Já não existem Camões,

Já não existem Arys,

Já não se escrevem canções

com os devidos pontos nos is.


Já não há poemas de Espanca,

nem a beleza de Andrade.

Chora triste a saudade,

sem os poetas de outrora

que brincavam com a rima

numa perfeita harmonia

e na métrica de cada verso

compunham a melodia

que entoava no universo

como verdadeira poesia.


Agora todos são poetas.

Todos querem ser fingidores.

Falsos escritores ou profetas,

que sem aptidões concretas,

rabiscam as suas dores,

ou os seus males de amores.

Como quem canta um fado,

e logo se julga fadista.

Num qualquer poema cantado

sem ter alma de artista.


Ah! Como eu gostava de ser

um poeta verdadeiro.

Ando por aqui a escrever

para tentar perceber

se sou um poeta inteiro.

Escrevo a dor que inquieta...

Escrevo a minha melancolia...

Sem saber se sou poeta,

ou sou frustrada poesia.





quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

NÃO ME LARGUES A MÃO

Não me largues a mão.

Deixa-me guiar-te, atravessar-te a estrada

irei contigo a qualquer lado.

Acompanhar-te na tua longa caminhada

Sendo o teu fiel soldado.

Deixa-me ser sol ou lua cheia,

se acaso te perderes na escuridão.

Ser a bússola que norteia,

a tua débil orientação.


Não me largues a mão.

Deixa-me levar-te e ensinar-te

tudo o que eu já aprendi 

Deixa-me mostrar-te e contar-te

os caminhos que eu percorri.

Deixa-me ser o teu afago

o conforto do teu aconchego

Deixa-me ser eu que apago,

algum teu desassossego.


Não me largues a mão.

Deixa-me proteger-te e amar-te

sendo o teu porto de abrigo.

Num mundo que quero dar-te,

sendo teu confidente e amigo.

Deixa-me ser teu herói

tua fonte de sabedoria.

e se algo em ti te dói,

fico eu em agonia.


Não me largues a mão.

Deixa-me dar-te toda a ternura,

e tudo o mais que eu possa dar.

Nessa tão ingrata aventura,

onde te preparo para voar.

Deixa-me ser teu escudeiro,

mesmo que não voltes ao ninho.

Deixa-me ser todo, inteiro,

uma constante no teu caminho.


Não me largues a mão.

Perdoa-me porque eu também falhei,

em escolhas erradas que fiz.

Mas foi porque lutando tentei,

ser outro alguém mais feliz.

Desculpa-me não te ter dado,

mais do que  eu te pude dar.

Mas daria a vida de bom grado

para a tua vida salvar.


Não me largues a mão.

Agora sou eu que preciso

que me atravesses a estrada.

Amparado pelo teu sorriso,

a passear de mão dada.

Agora peço eu que me leves,

para brincar no jardim.

Os momentos contigo são breves,

e eu já caminho pró fim.


Não me largues a mão.

Lembra-te que te ofereci a minha,

na tua tão veloz meninice.

Agora em mim tudo se encaminha,

para uma solitária velhice.

Mas não te prendas por mim,

abre as asas, sê feliz e vai.

Se não puderes dar-me a mão no fim

não esqueças nunca que fui teu pai.


quarta-feira, 25 de novembro de 2020

PERMISSÃO

Permite-me...

Permite-me roubar-te uns momentos

para que me possas ler ou ouvir.

Falando-te dos meus sentimentos,

do meu chorar, do meu sorrir,

explicando-te os meus tormentos,

e tudo o que estou a sentir.

Permite-me que eu tente,

chegar ao teu coração.

Mas para isso te peço, 

Permissão.


Permite-me...

Permite-me dar-te um conselho,

porque é do pouco que posso dar.

Porque já caminho para velho,

e foram muitos anos a pensar.

Mas quando em frente ao espelho,

não me consigo encontrar.

Permite-me esta ousadia,

de querer chamar-te à razão.

Mas para isso te peço,

Permissão.


Permite-me...

Permite-me que seja um intruso,

desvendando o teu ser.

Neste jeito que eu sempre uso,

de te tentar compreender.

De transformar o que é confuso,

Em algo simples de dizer.

Permite-me olhar-te nos olhos,

e ler a tua expressão.

Mas para isso te peço,

Permissão.


Permite-me...

Permite-me ficar de mão dada

fazer de ti meu fiel abrigo.

Pois tenho minha vida contada,

para poder estar contigo.

Se não puder dar-te nada,

fica com tudo o que eu digo.

Permite-me morrer em teu peito,

ouvindo o teu coração.

Mas para isso te peço,

Permissão.


Permite-me...

Permite-me que sejas o que resta,

neste meu breve morrer.

Porque eu morrerei em festa,

enquanto em ti eu viver.

Porque de mim o que presta,

foi o que dei para te ter.

Permite-me ser eternamente,

luz da tua escuridão.

Mas para isso te peço,

Permissão.


Permite-me...

Permite-me que a tua presença,

seja o ar que ainda respiro.

Que amar-te não seja ofensa,

mesmo quando me retiro.

Porque querer-te é uma doença,

onde me delicio e me firo.

Permite-me que adormeça,

na palma da tua mão.

Mas para isso te peço,

Permissão.


Permite-me...

Permite-me que cante ainda,

canções que não te cantei.

Porque esta paixão não finda,

nos versos onde te amei.

Como minha princesa linda,

que com meu amor coroei.

Permite-me levar-te na alma,

aos confins da minha solidão.

Mas para isso te peço,

Permissão.


Permite-me...

Permite-me um último olhar,

e um beijo de despedida.

Para que possa no além recordar,

que foste minha essência de vida.

Por isso não te quero a chorar,

na hora da minha partida.

Permite-me ser feliz memória,

a tua mais doce e maior paixão.

Mas para isso te peço,

Permissão.

terça-feira, 24 de novembro de 2020

PALAVRAS

Há palavras que nos beijam doce e suavemente a alma.

Que presenteiam o inesperado como murmúrio em ternura.

Outras há que são como facas cortando a paz e a calma,

que incendeiam o sangue em laivos puros de loucura.


Há palavras que nos acolhem num profundo aconchego,

que nos dizem e dão tanto mesmo sendo tão poucas.

Outras há que banhadas em fel nos lançam desassossego,

como farpas contundentes saídas de incontroladas bocas.


Há palavras simples e puras que nos dão tanto conforto,

que parecem embebidas num manto de ilusão e magia.

Outras há que cheiram à putrefacção de um ser morto,

cravadas no pensamento que sucumba em agonia.


Há palavras que são como flores de um qualquer jardim,

que florescem em nós como um sol de Primavera.

Outras há que despedaçam e trituram até ao fim,

que nos fazem conhecer o lado sombrio da quimera.


Há palavras que nos embalam com tão terna suavidade,

que nos motivam ansiosamente por um novo amanhecer.

Outras há que mesmo transportando a dura verdade,

se instalam em nós e nos impedem de adormecer.


Há palavras sensatas que nos vestem de alento,

que nos fazem visualizar apenas coisas bonitas.

Outras há que criam um rubor de febre e tormento,

e se prolongam nos anos depois de serem ditas.


Há palavras que são como mel e no amor nos modificam,

e nos ajudam a perceber quem realmente amamos.

Outras há peritas na mágoa que por dentro edificam,

motivadoras impunes de quem lentamente nos afastamos.


Há palavras que mesmo que fiquem para sempre caladas,

conseguimos ler atentos na expressão de um olhar.

Outras há que jamais deveriam ser ditas ou faladas,

na insensatez do dizer sem a clivagem do pensar.


Há palavras ingénuas e até gentilmente ignorantes,

e que tão mais facilmente nos ajudam a perdoar.

Outras há que são vis, tão cruéis e tão repugnantes

na sua intenção maléfica de querer ferir e magoar.


Há palavras que sonham e com luz transformam vidas,

e fomentam esperança, amizade, amor e paz.

Outras há que são eternamente arrependidas,

no infortúnio do dito que nunca mais volta atrás.


Há palavras que fecundam como sementes de esperança,

como fermento do querer ou levedura da vontade.

Outras há que nasceram do ódio e da pura vingança,

numa fome e sede insaciáveis de sarcástica maldade.


Há palavras que em metáforas são a mais bela poesia,

de versos cantados ou declamados por qualquer actor.

Outras há que são o epítome da cansativa agonia,

que se cravam na carne e nos dilaceram em dor.


Há palavras que queremos que se derretam na pele,

na brandura do toque tão suave e tão quente.

Outras há que nos vestem por dentro e a alma repele,

por não saber sequer explicar o que se sente.


Há palavras que são as mais belas recordações,

e vão alimentando no tempo essa tão doce lembrança.

Outras há que serão até à morte as piores desilusões,

e se arrastam num querer esquecer que tanto nos cansa.


Há palavras silenciosas que vivem no pensamento,

apenas no cérebro de quem as poderá perceber.

Outras há que se soltam esvoaçando no vento,

na irresponsabilidade daqueles que as ousam dizer.


Há palavras que sendo simplesmente a nossa expressão,

a nossa forma de pensar saída em sons pela voz.

Outras há que nos devem chamar à constante atenção, 

das ideias que em palavras saiem de dentro de nós.