Novidade

Brevemente, além de leres poderás ouvir os meus poemas e prosas recitados por mim e com fundo musical.

sábado, 7 de novembro de 2020

POEMA DA INQUIETAÇÃO

 Há um não sei quê de estranho que me invade a alma.

Um envelhecer taciturno que nem a poesia acalma.

Há uma vontade de partir, num desejo de ficar,

há um esgar de um sorrir, num contido chorar,

há um silêncio em segredo, que não se quer conter,

há uma angústia, um medo, na coragem que necessito ter.

Há em mim sentimentos escuros que me toldam a razão.

Um não perceber quem sou que me provoca inquietação.

Há uma réstea de um sonho, uma pálida esperança.

Há uma semente que eu ponho a germinar na bonança.

Há uma voz que me diz, para aceitar a realidade.

Há um não saber ser feliz, ou se há felicidade.

Há o passado que atormenta, mesmo que ultrapassado.

Há um presente que me tenta, para um futuro desejado.

Há palavras na minha boca, que se colam como beijos,

Há uma vontade louca, de satisfazer meus desejos.

Há um querer crescer constante, na vontade de ser melhor.

Há um querer ser amante, e entender o amor.

Há um tanto e há um nada, que se misturam em mim.

Há um pranto uma gargalhada, incoerentes e sem fim.

Há um desejo de escrever, que se torna incontrolável.

Há um não saber dizer, ou sentir o que é palpável.

Há um silêncio, quase mudo, nos gritos que ainda dou.

Há um querer ser tudo, do nada que afinal eu sou.

Há a falta de um abraço, de um beijo, de um abrigo.

Há a falta de um espaço, a falta de um amigo.

Há as saudades e as dores, daqueles que já partiram.

Há os jardins sem flores, de amores que não floriram.

Há um mundo com um porquê, que não sei perceber.

Há uma multidão que não me vê, e eu nem me estou a esconder.

Há um anoitecer sombrio, de um dia que talvez vá chegar.

Há ainda um lugar vazio, para quem quiser ficar.

Há poemas inquietos, rimas que se conjugam.

Há os que são incorretos, e sem me conhecer me julgam.

Há por fim, um olhar os ponteiros, vendo o tempo a passar.

Há em mim, sentimentos derradeiros, ao não saber que pensar.

segunda-feira, 2 de novembro de 2020

TEMPO SEM TEMPO

Houve um tempo,

Em que o tempo tinha tempo,

para saborear o vento,

para medir a palmo,

a imensidão do mar.

Houve um tempo,

Em que os homens sonhavam,

e as crianças plantavam,

sorrisos no seu brincar.

Houve um tempo,

Em que os cantores cantavam,

e os músicos tocavam,

inspiradas melodias.

Nesse tempo, 

ninguém deu valor ao tempo,

Julgou-se que ele era eterno,

E qualquer gesto meigo ou terno,

ficava sempre para depois,

Havia tempo para os abraços,

que ficavam esquecidos,

Havia tempo para os beijos,

que não se davam, vencidos,

Havia tempo para tudo,

quase tudo,

Até havia tempo para o amor...

Mas vivia-se tão depressa,

correndo e sempre à pressa,

Que pouco se aproveitava,

do que o tempo nos dava,

e fingiamos não perceber

do tanto que perdíamos,

nessa vida por viver.

Houve um tempo,

um longo tempo,

Em que os pais e os avós,

sentiram falta de nós,

É nós não tivémos tempo,

para o nosso tempo lhes dar.

E agora, 

que o tempo rouba tempo ao tempo,

choramos a saudade

de não os podermos beijar.

Os filhos pediam aos pais,

um pequeno tempo para brincar,

Mas havendo tempo a mais,

nunca havia tempo,

apenas desculpas,

de não haver tempo para parar.

Depois, veio outro tempo,

e ficámos até sem saber,

o que com esse tempo fazer...

O tempo mudou as rotinas,

como em vidas clandestinas,

fomos obrigados a viver.

Um tempo sem noite,

Um tempo sem dia,

Tempos de agonia,

Tempos de um não viver.

Só então se percebeu,

que o outro tempo que se viveu,

tinha tanto de errado.

Porque tendo tanto tempo,

vivia-se sempre sem tempo,

enquanto a vida passava ao lado.

Fizeram-se então promessas,

de acabar com as pressas,

Quando o tempo voltasse atrás...

Como se o tempo fosse moldável,

um relógio, regulável,

que pudesse andar para trás.

Gastámos tanto tempo,

a entender que o tempo,

É um espaço de cada um.

Dentro de um tempo comum.

São os pequenos tempos,

que fazem do nosso tempo,

um tempo muito melhor.

São escolhas que fazemos,

os tempos que vivemos,

porque o tempo que não escolhemos,

É sempre bem pior.

Hoje, não sei se o tempo tem tempo,

somos destinos em pausa,

somos sonhos sem causa,

numa roleta da sorte.

Somos um tempo parado,

sem futuro nem parado,

Entre a vida e a morte.

Mas neste tempo sem tempo,

há que encontrar a razão,

do tempo que vivemos assim.

O pormenor, o momento,

o sol, a chuva e o vento,

o amor que nos dá alento,

São o nosso melhor tempo,

antes que o nosso tempo tenha fim.

quinta-feira, 29 de outubro de 2020

ALENTO

Há em mim um não sei quê de esquisito,
Há um grito silencioso e aflito,
Incapaz de dizer ou de falar.
Uma amálgama confusa de sentimentos,
Um indecifrável turbilhão de pensamentos,
Como se a noite viesse para perdurar.

Os sonhos, que há muito já partiram,
nas agruras dos dias se diluiram,
Sendo agora a miragem de eternos desejos.
Erroneamente não sei o que me conduz,
Se nem no fundo do túnel vejo a luz,
Como posso das palavras fazer beijos?

Sinto-me gasto, cansado e ferido,
Como se estivesse perdido,
Dentro do ser que há em mim.
Procuro-me naquilo que eu era,
Como um sol sem Primavera,
num Outono que não tem fim.

Restam-me as palavras que rascunho,
Em jeito de um testemunho,
de tudo o que estou a sentir.
Para disfarçar a verdade,
na esperançosa eventualidade,
de alguém as querer ler ou ouvir.

Como posso saber do que sou feito,
se fui tantas vezes refeito
às circunstâncias da vida?
Como se encontra a bonança
numa constante mudança
leviana e indefinida?

Tantos caminhos, tantas estradas,
foram tantas encruzilhadas,
em que o destino me colocou.
Tantas lágrimas escondidas,
nas noites tão mal dormidas,
que o sofrimento secou.

Mas teimoso, segui viagem,
nem sei com que coragem,
pois só queria desistir.
O amor! O amor foi a razão,
pela qual meu coração,
tentava ainda sorrir.

Mas estou farto, cansado,
de tentar esquecer o passado,
e construir um novo eu.
O que não mata, desgasta,
e apetece dizer basta,
à vida que me venceu.

Eu nem me sei já exprimir...
Oh vida! faz-me sorrir,
traz-me sorrisos no vento.
Sei que pareço um louco,
Mas só te peço mais um pouco
de paciência e de alento.




domingo, 11 de outubro de 2020

Não me perguntes quem sou...

Não me perguntes quem sou!

Não to saberei dizer.

Talvez pedaços soltos de mim,

Como um puzzle que não tem fim,

num constante refazer.

Sou como pedra de calçada 

que farta de ser pisada

já está gasta e polida...

Sou como a velha canção 

da qual só lembram o refrão 

já sem essência de vida.


Não me perguntes quem sou!

Não to saberei explicar.

Talvez seja um pedaço de terra

Uma árvore no meio da serra,

Uma onda à beira mar...

Não sou quem vês à tua frente,

Já não sonho como antigamente,

Nos braços da ingenuidade...

Sou agora desgosto contido

Sou como um lobo ferido,

Na percepção da realidade.


Não me perguntes quem sou!

Não to saberei exprimir.

Sou como um Deus sem dom,

Sou como sorriso sem som,

Sou flor que não pode florir...

Não sou aquele que vejo ao espelho

Que bem mais cansado e velho,

Os anos de rugas pintou...

Sou eterno poeta delirante,

Sou jovem crente e amante,

Que a vida castigou.


Não me perguntes quem sou!

Não posso nem saberei responder.

Quem sabe eu seja um louco,

Que de tanto viveu tão pouco,

do que realmente queria viver...

Sou o espanto do que vou ouvindo,

Do que vou vendo e vou sentindo,

Nesta sociedade tão perdida...

Sou por isso um angustiado,

por ver o mundo dominado,

pela falta de valores de vida.


Não me perguntes quem sou!

Não quero falar mais de mim.

Como queres que mais eu diga,

Quando é tão grande a fadiga,

ao aproximar-me do fim...

Sou o resto dos tantos quase

Sou o rosto de tanta fase,

do feito e do que não fiz...

Sou o fruto do meu passado,

Sou finalmente amado,

e só isso me faz feliz.


Não me perguntes quem sou!

Não creio que vás entender.

Sou um guerreiro do azar sem sorte,

Que vendo chegar a morte,

quer ainda mais viver...

Sou a calmia dos ventos,

Sou a inquietação dos pensamentos,

Que não me deixa descansar...

Sou um apreciador dos momentos,

Que efémeros e lentos,

Me fazem ainda sonhar.


Não me perguntes quem sou!

Não te interessa quem eu seja.

Sou da tristeza um poeta,

Da felicidade um profeta,

Do abraço , quem deseja.

Sou um todo um quase nada,

Já perto do fim da estrada,

E não sei para onde vou...

Quando olho agora para trás 

Só quero seguir em paz

Sem nunca saber quem eu sou.


domingo, 20 de outubro de 2019

Vem acordar comigo...

Passam os minutos, as horas, os dias,
Meço no tempo a distância
Que me vai separando de ti...
E contudo, sinto-me tão perto,
Tão constante, tão presente,
Porque embora o corpo ausente,
Sinto o que nunca senti.
Sou tão teu, tu és tão minha...
Sou teu rei, minha rainha,
Sou teu vento, minha andorinha,
Sou a noite e tu... Luar.
Eu sou a praia, e tu... O mar.
És em mim o complemento
Que sempre em mim faltou...
Eu sou em ti o momento
Em que a vida nos encontrou.
Tu és tudo, eu sou nada,
O quanto somos não importa,
Na rua parecemos tão pouco,
Porque o mundo anda louco,
E não sabe que somos tanto
Ao fechar a nossa porta.
Somos o cadeado cerrado
Que teima em não se abrir...
Somos o incenso queimado
Em rosas sempre a florir...
Somos a lágrima lambida
No sorriso que a faz extinguir...
Somos unos na incerteza
De não saber o vem depois...
Mas tão certos que o que venha
Será vivido a dois.
Dói a distância, a saudade,
Dói o tempo, dói a verdade,
Dói o querer o que não se tem...
Dói chorar, dói amar,
Dói sentir falta de alguém.
E mesmo ao estar sozinho
Oiço-te sempre dizer baixinho
O que adoro, mas é castigo,
- O teu lugar é aqui,
Vem para o pé de mim,
Vem acordar comigo.

Já não tenho tempo

Já não tenho tempo...
A vida passou tão depressa,
E eu nem vi no tempo a vida a passar.
Olho apenas para trás
E apenas consigo ver
Um filme a preto e branco
Do que a minha vida foi.
Quem me dera ter tempo
Para rebobinar o passado
E voltar às estradas,
Às encruzilhadas,
Às opções que fiz,
Aos caminhos que escolhi,
E poder escolher novamente...
Mas não há tempo,
E a vida não é assim...
O tempo que me resta
É o que ainda vive em mim.
Nem sequer sei,
Se outros caminhos tivesse escolhido,
Se outras opções tivesse feito,
Estaria agora mais satisfeito
Na espera de viver o resto de tempo
Que ainda sobra até ao meu fim?
Talvez. Nunca o saberei.
Sei apenas que amei.
Que me dei ao que vivi.
Quantas vezes me vi morto?
Quantas vezes eu renasci?
Quantas lágrimas eu chorei
Para chegar até aqui?
Quantas vezes eu errei
Julgando mesmo estar certo...
Quantas vezes me perdi
E me encontrei num deserto...
Quantas vezes ficou noite
Mesmo com o sol a brilhar...
Quantas vezes eu sorri
Com tanta vontade de chorar....
Foi outro tempo...
Outro tempo sem tamanho
Tempo que agora não tenho
Para poder divagar
Pois o tempo, embora lento,
Vai-nos levando o alento
Para o tempo que fica a faltar.
Não me arrependo de nada,
Nem sequer do que sofri.
Essa foi a minha estrada
Bem ou malfadada
Que me trouxe até aqui.
E agora que me resta?
Será que o tempo me empresta
Um pouco de tempo mais?
É que há sempre algo por fazer
Que ainda não terminou
Há uma certeza de morrer
Que dentro do corpo se cravou
E o tempo, esse tempo,
Como tão rápido passou.
Sei que já tenho menos tempo
Do o tempo que eu já gastei,
Mas do tempo, à minha frente,
Quanto tempo resta não sei.
Mas se acaso tiver tempo
Para amar, ser amado,
E tentar ser feliz ou louco talvez...
Então direi ao tempo,
Que o tempo só a pena
A lutar pela vida outra vez.


sexta-feira, 18 de outubro de 2019

A TRISTEZA NO TEU OLHAR


Eu não te quero ver triste...
Porque me faz doer a alma,
Porque me incendeia a mente,
Porque ver-te descontente,
É maior que a tristeza em mim,
É como dor que perdura
Sem ter cura, sem ter fim.

Eu não te quero ver triste...
Porque és o sol dos meus dias,
Porque és nas noites meu sonhar,
Porque te canto ao luar
Num uivo grato de vida
E ao ver triste esse olhar
É como chorar, em despedida.

Eu não te quero ver triste...
Porque o teu rosto tem luz
Porque é esplendor o teu sorriso,
Porque és como um paraíso
Onde eu quero tanto viver,
Na minha sede, tu és água,
E não mágoa que faz sofrer.

Eu não te quero ver triste...
Porque a vida é mesmo assim.
Porque o melhor da tua existência,
Porque o valor da tua essência,
É o teu maior valor.
A vida pode ser tão boa,
Abre asas e voa, voa, meu amor.

Eu não te quero ver triste...
Porque não sei ver-te chorar.
Porque quero-te resiliente,
Porque te quero contente,
Com tudo o que está por vir...
E conto então estar a teu lado,
Para ver o teu olhar sorrir.